Bulas e Medicamentos

Aspirina: para que serve, dose e riscos

A aspirina, cujo nome genérico é ácido acetilsalicílico, é um dos fármacos mais antigos e amplamente utilizados a nível mundial. Descoberta na sua forma pu…

A aspirina, cujo nome genérico é ácido acetilsalicílico, é um dos fármacos mais antigos e amplamente utilizados a nível mundial. Descoberta na sua forma pura em 1897 por Felix Hoffmann, tornou-se rapidamente uma pedra angular na medicina devido às suas propriedades analgésicas, antipiréticas e anti-inflamatórias. A sua versatilidade e eficácia levaram a que se tornasse um elemento essencial em muitos lares e instituições de saúde.

Para além do seu uso tradicional no alívio da dor e da febre, a aspirina ganhou destaque pelas suas ações antiplaquetárias. Esta particularidade tornou-a um pilar fundamental na prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares e cerebrovasculares. No entanto, é crucial entender que, apesar dos seus benefícios, a aspirina não está isenta de riscos e o seu uso deve ser consciente e, preferencialmente, sob orientação profissional.


Para que serve a Aspirina?

A aspirina é um fármaco com múltiplas aplicações terapêuticas, abrangendo desde o alívio de sintomas comuns até à prevenção de eventos cardiovasculares graves. As suas principais indicações podem ser classificadas em três grandes categorias, baseando-se nas suas distintas propriedades farmacológicas:

1. Alívio da dor e redução da febre (ação analgésica e antipirética)

A aspirina é eficaz no alívio de dores de intensidade ligeira a moderada. Esta ação analgésica é particularmente útil para condições como:

  • Dores de cabeça: Incluindo enxaquecas ligeiras e dores de cabeça tensionais.
  • Dores musculares: Consequência de exercício físico, má postura ou lesões menores.
  • Dores menstruais: Alleviando as cólicas e o desconforto associado.
  • Dores de dentes: Útil em casos de dor pulpar ou após procedimentos dentários.
  • Febre: Ajuda a baixar a temperatura corporal elevada em quadros febris de diversas origens.

A sua capacidade de reduzir a febre advém da sua ação no centro termorregulador do hipotálamo, restaurando o ponto de ajuste térmico do corpo.

2. Ação anti-inflamatória

Como anti-inflamatório não esteroide (AINE), a aspirina é capaz de reduzir a inflamação, o inchaço e a rigidez associados a várias condições. É frequentemente utilizada para:

  • Artrite reumatoide: Contribui para o controlo da inflamação e da dor crónica nas articulações.
  • Osteoartrite: Ajuda a gerir a dor e a inflamação em articulações desgastadas.
  • Outras doenças inflamatórias: Como a febre reumática e certas condições musculoesqueléticas.

Embora existam AINEs mais potentes e com um perfil de segurança gastrointestinal melhor para uso crónico anti-inflamatório, a aspirina em doses elevadas ainda pode ser considerada em contextos específicos.

3. Prevenção de eventos cardiovasculares e cerebrovasculares (ação antiplaquetária)

Esta é, talvez, a indicação mais crucial da aspirina em doses baixas. A sua capacidade de inibir a agregação plaquetária torna-a um fármaco protetor em indivíduos com risco de formação de coágulos sanguíneos. As principais aplicações incluem:

  • Prevenção primária: Em indivíduos com alto risco de desenvolver um primeiro evento cardiovascular (por exemplo, história familiar forte, múltiplos fatores de risco como hipertensão, diabetes, dislipidemia), a aspirina pode ser considerada. No entanto, esta decisão requer uma avaliação rigorosa do balanço risco-benefício, uma vez que o risco de hemorragias pode, em alguns casos, superar o benefício em prevenção primária.
  • Prevenção secundária: É largamente recomendada em doentes que já sofreram um evento cardiovascular ou cerebrovascular, como:
  • Enfarte agudo do miocárdio (ataque cardíaco): Para prevenir novos eventos isquémicos.
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquémico: Para reduzir o risco de recorrência.
  • Angina instável e angina estável: Como parte do tratamento para estabilizar a doença arterial coronária.
  • Doença arterial periférica: Para prevenir eventos trombóticos nas extremidades.
  • Após certos procedimentos: Como a colocação de stents coronários ou cirurgia de bypass coronário, para evitar a trombose.

A aspirina em baixa dose atua como um "afinador do sangue", embora não seja um anticoagulante no sentido estrito (como a varfarina ou as heparinas). A sua ação é ao nível das plaquetas, tornando-as menos "pegajosas" e diminuindo a probabilidade de formação de coágulos que podem bloquear artérias e causar enfartes ou AVCs. É crucial distinguir esta ação preventiva da sua utilização em doses mais elevadas para a dor e inflamação, pois os mecanismos subjacentes são diferentes.

Pode saber mais sobre a diferença entre aspirina e outros medicamentos para a dor no nosso artigo sobre [Paracetamol ou Ibuprofeno: qual escolher?].


Como funciona a Aspirina? Mecanismo de Ação

O ácido acetilsalicílico (AAS), a substância ativa da aspirina, exerce os seus efeitos terapêuticos através de um mecanismo de ação complexo e bem estudado, centrado principalmente na inibição de enzimas específicas conhecidas como ciclo-oxigenases (COX). Existem duas isoformas principais destas enzimas, COX-1 e COX-2, e a aspirina atua de forma diferente em cada uma, dependendo tanto da dose como da sua natureza.

1. Inibição da ciclo-oxigenase (COX)

As enzimas COX são cruciais na produção de prostanoides, um grupo de lípidos sinalizadores que inclui prostaglandinas, prostaciclinas e tromboxanos. Estes prostanoides desempenham um papel fundamental em processos fisiológicos e patológicos como inflamação, dor, febre e agregação plaquetária.

  • COX-1 (Constitutiva): Esta isoforma está presente na maioria dos tecidos do corpo e desempenha funções fisiológicas importantes. É responsável pela produção de:
  • Prostaglandinas: Que protegem o revestimento do estômago e regulam o fluxo sanguíneo renal.
  • Tromboxano A2 (TXA2): Produzido nas plaquetas sanguíneas, o TXA2 é um potente promotor da agregação plaquetária e da vasoconstrição.
  • COX-2 (Induzível): Embora também presente em alguns tecidos, a sua expressão é significativamente aumentada em locais de inflamação e infecção. É responsável pela produção de:
  • Prostaglandinas: Que contribuem para a dor, febre e inflamação nos locais de lesão ou doença.
  • Prostaciclinas: Produzidas nas células endoteliais dos vasos sanguíneos, as prostaciclinas inibem a agregação plaquetária e promovem a vasodilatação.

2. Mecanismo de ação da aspirina ao nível molecular

A aspirina é única entre os AINEs porque inibe as enzimas COX de forma irreversível através da acetilação de um resíduo de serina no local ativo da enzima. Isto significa que a COX inativada pela aspirina não pode recuperar a sua função até que novas moléculas da enzima sejam sintetizadas.

  • Ação antiplaquetária (doses baixas: 75 mg - 325 mg):
  • Em doses baixas, a aspirina inibe preferencialmente a COX-1 nas plaquetas.
  • As plaquetas são anucleadas, o que significa que não podem sintetizar novas proteínas, incluindo novas enzimas COX-1.
  • Portanto, a inibição da COX-1 nas plaquetas pela aspirina é permanente durante toda a vida útil da plaqueta (cerca de 7-10 dias).
  • Esta inibição leva a uma redução drástica na produção de tromboxano A2 (TXA2), um potente agente pró-agregante.
  • O resultado é uma diminuição significativa da capacidade das plaquetas para se agregarem e formarem coágulos, sendo este o principal mecanismo por trás da prevenção de eventos cardiovasculares.
  • Ação analgésica, antipirética e anti-inflamatória (doses moderadas a altas: > 500 mg):
  • Em doses mais elevadas, a aspirina inibe tanto a COX-1 como a COX-2 em outros tecidos do corpo.
  • A inibição da COX-2 em tecidos inflamatórios reduz a produção de prostaglandinas que causam dor, febre e inflamação.
  • A inibição da COX-1 em outros tecidos contribui para os efeitos secundários gastrointestinais, uma vez que suprime a produção de prostaglandinas protetoras da mucosa gástrica.

Diferença crucial: inibição reversível vs. irreversível

É importante salientar que a maioria dos outros AINEs (como o ibuprofeno ou o naproxeno) inibem as enzimas COX de forma reversível. Isso significa que, quando o medicamento é eliminado do corpo, a enzima recupera a sua função normal. A inibição irreversível da COX-1 plaquetária pela aspirina é o que a torna única e a confere a sua eficácia superior como agente antiplaquetário de longa duração.

Em resumo, a aspirina atua como um inibidor irreversível das enzimas ciclo-oxigenase. Em doses baixas, visa seletivamente as plaquetas para impedir a formação de coágulos, enquanto em doses mais elevadas, atua de forma mais generalizada para combater a dor, a febre e a inflamação, modulando a produção de diversos prostanoides no corpo.


Doses recomendadas de Aspirina

A dosagem da aspirina varia significativamente consoante a indicação terapêutica e a idade do doente. É crucial aderir às recomendações médicas ou às instruções presentes na bula para garantir a eficácia e minimizar os riscos. Nunca se deve autoadministrar doses diferentes das recomendadas sem aconselhamento profissional.

A aspirina está disponível em diversas formulações e dosagens, nomeadamente em comprimidos simples, comprimidos revestidos entéricos (para proteger o estômago) ou efervescentes.

1. Para prevenção cardiovascular (antiplaquetário)

Neste contexto, o objetivo é a inibição da agregação plaquetária, que é conseguida com doses muito baixas.

  • Dose diária recomendada: Geralmente entre 75 mg e 100 mg, tomada uma vez ao dia. Em alguns casos, pode ser recomendado até 325 mg por dia, mas as doses mais baixas são as mais comuns e preferidas devido ao melhor perfil de segurança.
  • Forma de administração: Normalmente um comprimido de dose baixa, frequentemente revestido entérico para reduzir a irritação gástrica.
  • Importante: A decisão de iniciar aspirina para prevenção cardiovascular deve ser tomada exclusivamente pelo médico, que avaliará o risco/benefício para cada doente individualmente. Não se deve iniciar esta terapia por conta própria.

2. Para dor, febre e inflamação

Para estas indicações, são necessárias doses mais elevadas do que as usadas na prevenção cardiovascular.

  • Adultos e adolescentes (a partir dos 12 anos):
  • Dose única: Geralmente, 500 mg a 1000 mg (1 a 2 comprimidos de 500 mg).
  • Dose diária máxima: Não deve exceder 3000 mg (3 gramas) em 24 horas.
  • Frequência: A dose pode ser repetida a cada 4 a 8 horas, conforme necessário, mas respeitando a dose diária máxima.
  • Crianças: A aspirina deve ser evitada em crianças e adolescentes com menos de 16 anos, a menos que especificamente indicada por um médico em condições muito raras (e.g., doença de Kawasaki) devido ao risco de Síndrome de Reye.
  • Forma de administração: Comprimidos simples, efervescentes ou revestidos. Recomenda-se tomar com alimentos ou leite para minimizar a irritação gástrica.

Tabela resumo de dosagens comuns

IndicaçãoDose única (Adultos)FrequênciaDose diária máxima (Adultos)Notas importantes
Prevenção cardiovascular75 mg - 100 mg1 vez ao dia100 mg (ocasionalmente 325 mg)Apenas sob indicação médica. Não iniciar por conta própria.
Dor/Febre (ligeira-moderada)500 mg - 1000 mgA cada 4-8 horas3000 mgTomar com alimentos. Evitar em crianças < 16 anos (risco de Síndrome de Reye).
Inflamação (anti-inflamatório)1000 mg (em doses divididas)Variável, sob supervisão médica4000 mg (raramente até 6000 mg)Uso para inflamação crónica requer supervisão médica e monitorização rigorosa devido a efeitos secundários.

Considerações especiais

  • Idosos: Devem ser usadas as doses eficazes mais baixas, e a avaliação do risco/benefício deve ser cuidadosa devido ao aumento do risco de efeitos secundários, especialmente hemorragias gastrointestinais.
  • Doentes com insuficiência renal ou hepática: A dose pode necessitar de ajuste significativo e o uso deve ser monitorizado de perto por um médico.
  • Condução: Em doses para dor e febre, a aspirina não afeta a capacidade de conduzir ou operar máquinas. No entanto, se o doente sentir tonturas ou perturbações da visão, deve evitar estas atividades.

É vital lembrar que a aspirina é um medicamento, e a sua utilização deve ser sempre orientada e informada. Em caso de dúvida, contacte sempre o seu médico ou farmacêutico.


Efeitos secundários e riscos da Aspirina

Apesar da sua vasta utilização e comprovada eficácia, a aspirina não está isenta de efeitos secundários e riscos, que podem variar em gravidade de acordo com a dose, a duração do tratamento e a suscetibilidade individual do doente. É fundamental estar ciente destas potenciais reações para um uso seguro do medicamento.

1. Efeitos secundários gastrointestinais (os mais comuns)

A aspirina é um irritante conhecido para o trato gastrointestinal, e estes são os efeitos secundários mais frequentes:

  • Dor abdominal, azia e dispepsia: Sensação de queimação no estômago ou indigestão.
  • Náuseas e vómitos: Especialmente se tomada sem comida.
  • Úlceras gástricas e duodenais: A aspirina inibe a produção de prostaglandinas que protegem a mucosa do estestômago, tornando-o mais vulnerável ao ácido gástrico.
  • Hemorragia gastrointestinal: Pode variar de micro-hemorragias indetetáveis a hemorragias graves, que se manifestam como fezes escuras e pegajosas (melenas) ou vómitos com sangue (hematemese). O risco aumenta com a dose e a duração do tratamento, com a idade, e em doentes que consomem álcool ou tomam outros fármacos que aumentam o risco de hemorragia (e.g., anticoagulantes, outros AINEs).

Para minimizar estes riscos, recomenda-se tomar a aspirina com alimentos ou leite, ou optar por formulações revestidas entéricas, embora estas últimas não eliminem completamente o risco de úlcera ou hemorragia.

2. Riscos de hemorragia (independentemente do trato gastrointestinal)

Devido à sua ação antiplaquetária, a aspirina aumenta o risco de hemorragias em geral:

  • Hemorragias cutâneas: Hematomas, equimoses (nódoas negras) ou petéquias (manchas vermelhas pequenas).
  • Hemorragias nasais (epistaxis) ou gengivais: Mais comuns e geralmente benignas.
  • Hemorragias cirúrgicas: O risco de hemorragia é aumentado em cirurgias, incluindo procedimentos dentários. A aspirina deve ser suspensa vários dias antes de cirurgias programadas, sob orientação médica.
  • Hemorragia intracraniana (AVC hemorrágico): Embora rara, é uma complicação grave, especialmente em doses elevadas ou em doentes com fatores de risco (e.g., hipertensão não controlada).

3. Reações de hipersensibilidade (alérgicas)

Algumas pessoas podem desenvolver reações alérgicas à aspirina ou a outros AINEs:

  • Urticária, erupção cutânea e prurido: Reações cutâneas.
  • Angioedema: Inchaço do rosto, lábios, língua ou garganta.
  • Broncoespasmo (asma induzida por aspirina): Pode ocorrer em asmáticos, manifestando-se como pieira, falta de ar e aperto no peito, podendo ser grave.
  • Choque anafilático: Uma reação alérgica grave e potencialmente fatal, embora rara.

4. Efeitos no sistema nervoso central

  • Zumbido nos ouvidos (tinnitus) e surdez reversível: Estes são frequentemente os primeiros sinais de toxicidade por salicilatos (salicilismo) e ocorrem tipicamente com doses elevadas.
  • Tonturas, vertigens e dor de cabeça: Embora a aspirina trate a dor de cabeça, em doses elevadas pode paradoxalmente causá-la ou agravá-la.

5. Síndrome de Reye

Este é um risco raro, mas grave e potencialmente fatal, associado ao uso de aspirina em crianças e adolescentes (geralmente menores de 16 anos) com infeções virais (como gripe ou varicela). A Síndrome de Reye afeta o fígado e o cérebro, causando inchaço. Devido a este risco, a aspirina é geralmente contraindicada nesta faixa etária, a menos que especificamente indicada por um médico em condições muito particulares, como a doença de Kawasaki.

6. Outros efeitos secundários

  • Reações hepáticas: Elevação das enzimas hepáticas, especialmente em doentes com doença hepática pré-existente.
  • Reações renais: A aspirina pode afetar a função renal, especialmente em doentes desidratados, idosos ou com insuficiência renal pré-existente, devido à inibição das prostaglandinas que regulam o fluxo sanguíneo renal.
  • Interações medicamentosas: A aspirina pode interagir com outros medicamentos, potenciando os seus efeitos adversos ou diminuindo a sua eficácia. Particularmente relevantes são os anticoagulantes (varfarina, heparina), outros AINEs, diuréticos, betabloqueadores, metotrexato e alguns antidepressivos. Consulte o seu farmacêutico ou médico sobre todas as interações.

Resumo dos riscos

Sistema CorporalEfeitos Secundários ComunsEfeitos Secundários Graves (Raros)
GastrointestinalAzia, dor de estômago, náuseasÚlcera gástrica, hemorragia gastrointestinal
HematológicoPequenos hematomas, hemorragias nasaisHemorragias graves (gastrointestinal, intracraniana)
RespiratórioBroncoespasmo (asma por aspirina)
Sistema NervosoTonturas, zumbidosSíndrome de Reye (crianças), AVC hemorrágico
Renal/HepáticoInsuficiência renal aguda (em risco), lesão hepática
ImunitárioErupção cutâneaReação anafilática, angioedema

A monitorização e a comunicação com o médico são essenciais para gerir os riscos associados à terapêutica com aspirina, especialmente em tratamentos crónicos ou em doses elevadas.


Contraindicações e precauções

A aspirina, sendo um fármaco potente, possui várias contraindicações e exige precauções especiais em determinadas situações. O conhecimento destas é fundamental para evitar efeitos adversos graves e garantir a segurança do doente.

1. Contraindicações absolutas

A aspirina não deve ser utilizada nas seguintes situações:

  • Hipersensibilidade conhecida à aspirina ou a outros salicilatos/AINEs: Inclui asma, rinite ou urticária induzidas por aspirina ou outros AINEs no passado.
  • Úlcera gastroduodenal ativa: Devido ao risco elevado de agravar a úlcera e provocar hemorragia.
  • Hemorragia gastrointestinal ativa ou história de hemorragia gastrointestinal recorrente: A aspirina pode aumentar o risco de ressangramento.
  • Terapia com anticoagulantes orais (e.g., varfarina): A combinação de aspirina com anticoagulantes aumenta drasticamente o risco de hemorragias graves.
  • Insuficiência renal grave: A aspirina pode agravar a disfunção renal.
  • Insuficiência hepática grave: Aumenta o risco de toxicidade e hemorragia.
  • Insuficiência cardíaca grave não controlada: Pode exacerbar a retenção de líquidos e a sobrecarga cardíaca.
  • Diátese hemorrágica: Condições que aumentam a predisposição para hemorragias (e.g., hemofilia, trombocitopenia).
  • Crianças e adolescentes com menos de 16 anos, em caso de doenças febris (especialmente virais): Devido ao risco de Síndrome de Reye, que é uma condição rara, mas grave e potencialmente fatal.
  • Último trimestre de gravidez: O uso de AINEs no terceiro trimestre pode causar toxicidade cardiopulmonar e renal no feto, prolongar o parto e aumentar o risco de hemorragias maternas e fetais.

2. Precauções especiais (uso com cautela e sob supervisão médica)

A aspirina deve ser utilizada com precaução e sob rigorosa supervisão médica nas seguintes condições:

  • História de úlcera gástrica ou duodenal, gastrite ou esofagite preexistente: Mesmo que não esteja ativa, o risco de reativação ou agravamento é maior. Pode ser necessário o uso concomitante de protetores gástricos (como inibidores da bomba de protões).
  • Doença renal leve a moderada: Pode ser necessário reduzir a dose e monitorizar a função renal.
  • Doença hepática leve a moderada: Monitorização da função hepática.
  • Asma brônquica (não induzida por aspirina): Existe um risco acrescido de broncoespasmo.
  • Hipertensão arterial não controlada: Aumenta o risco de hemorragia intracraniana.
  • Diabetes mellitus: Pode interferir com o controlo glicémico e aumentar o risco de complicações cardiovasculares em algumas subpopulações, embora seja frequentemente utilizada na prevenção primária/secundária.
  • Gota: A aspirina em doses baixas pode inibir a excreção de ácido úrico, potencialmente agravando ou precipitando crises de gota.
  • Gravidez (primeiro e segundo trimestres): O uso deve ser evitado, a menos que seja estritamente necessário e sob indicação médica, com a dose mais baixa e pelo menor tempo possível.
  • Aleitamento: A aspirina é excretada no leite materno. Embora as doses pediátricas sejam baixas e o risco de Síndrome de Reye seja baixo no lactente, deve ser avaliado o risco/benefício e, se possível, evitar.
  • Cirurgia (incluindo dentária): A aspirina deve ser suspensa 5 a 7 dias antes de procedimentos cirúrgicos programados para minimizar o risco de hemorragia excessiva. Esta decisão deve ser sempre tomada pelo médico ou cirurgião.
  • Doentes idosos: Maior risco de efeitos secundários gastrointestinais e renais, bem como complicações hemorrágicas. Deve-se optar pela dose mais baixa eficaz.
  • Consumo significativo de álcool: O álcool, em combinação com a aspirina, aumenta o risco de danos na mucosa gástrica e hemorragias.
  • Concomitância com outros fármacos:
  • Outros AINEs: Aumenta o risco de efeitos secundários gastrointestinais e renais.
  • Anticoagulantes (exceto em indicações específicas sob estrita vigilância): Risco de hemorragia.
  • Inibidores seletivos da recaptação da serotonina (SSRIs): Podem aumentar o risco de hemorragia gastrointestinal.
  • Corticosteroides: Aumenta o risco de úlceras e hemorragias digestivas.
  • Metotrexato: A aspirina pode aumentar os níveis sanguíneos de metotrexato, potenciando a sua toxicidade.
  • Diuréticos e anti-hipertensores: A aspirina pode reduzir a eficácia de alguns destes medicamentos.

É imperativo que os doentes informem o seu médico ou farmacêutico sobre todas as condições médicas preexistentes e todos os medicamentos que estão a tomar (incluindo suplementos e produtos de ervanária) antes de iniciar ou continuar a terapia com aspirina, a fim de garantir a segurança e otimizar os resultados do tratamento.


Perguntas frequentes

A aspirina é o mesmo que o paracetamol ou o ibuprofeno?

Não, a aspirina (ácido acetilsalicílico) é diferente do paracetamol e do ibuprofeno. Embora todos sejam utilizados para dor e febre, a aspirina e o ibuprofeno pertencem à classe dos anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e possuem ação anti-inflamatória e antiplaquetária. O paracetamol não é um AINE, não possui ação anti-inflamatória significativa e não afina o sangue.

Devo tomar aspirina diariamente para prevenir ataques cardíacos?

A decisão de tomar aspirina diariamente para prevenir ataques cardíacos (prevenção primária) deve ser exclusivamente do seu médico. Embora possa ser benéfica em pessoas com alto risco cardiovascular, também aumenta o risco de hemorragias. O médico irá avaliar o seu perfil de risco individual e determinar se os benefícios superam os riscos no seu caso.

Posso tomar aspirina se tiver úlceras no estômago?

Não, se tiver uma úlcera de estômago ativa, a aspirina é contraindicada. A aspirina pode agravar as úlceras e causar hemorragias gastrointestinais graves. Mesmo com historial de úlceras, o uso é feito com grande cautela e geralmente com a prescrição de um protetor gástrico.

Quanto tempo devo parar de tomar aspirina antes de uma cirurgia?

Geralmente, recomenda-se suspender a aspirina (especialmente as doses antiplaquetárias) 5 a 7 dias antes de uma cirurgia programada, incluindo procedimentos dentários. No entanto, é fundamental seguir as instruções específicas do seu médico ou cirurgião, pois o período pode variar dependendo do tipo de cirurgia e do seu risco cardiovascular.

A aspirina é segura para crianças?

Não, a aspirina não é geralmente recomendada para crianças e adolescentes com menos de 16 anos, especialmente se tiverem infeções virais com febre (como gripe ou varicela). Existe um risco raro, mas grave, de Síndrome de Reye, que é uma condição que afeta o fígado e o cérebro. Outros analgésicos e antipiréticos, como o paracetamol ou o ibuprofeno, são preferíveis para esta faixa etária.

Posso beber álcool enquanto tomo aspirina?

Não é aconselhável combinar aspirina com consumo significativo de álcool, pois ambos podem irritar o revestimento do estômago e aumentar o risco de úlceras e hemorragias gastrointestinais. O consumo de álcool deve ser moderado ou evitado enquanto estiver a tomar aspirina.


Fontes e referências

  1. INFARMED - Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, I.P. (RCM de medicamentos com ácido acetilsalicílico). Disponível em: www.infarmed.pt
  2. European Medicines Agency (EMA). Human medicines: Aspirin. Disponível em: www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/aspirin
  3. Manual MSD (Versão Saúde para a Família). Aspirina. Disponível em: www.msdmanuals.com/pt/casa/fatos-rápidos-medicamentos-e-substâncias/aspirina
  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Aspirin. Disponível em: www.nice.org.uk/guidance/ng30/chapter/Recommendations#aspirin
  5. Drugs.com. Aspirin. Disponível em: www.drugs.com/aspirin.html
  6. Mayo Clinic. Aspirin: Understanding the benefits and risks. Disponível em: www.mayoclinic.org/diseases-conditions/heart-disease/in-depth/aspirin-therapy/art-20046316