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Tonturas e vertigens: causas e quando preocupar-se

Tonturas e vertigens são sintomas comuns que podem manifestar-se de diversas formas, desde uma ligeira sensação de desequilíbrio até uma percepção intensa …

Tonturas e vertigens são sintomas comuns que podem manifestar-se de diversas formas, desde uma ligeira sensação de desequilíbrio até uma percepção intensa de que o mundo está a girar. Embora muitas vezes usados ​​como sinónimos no dia a dia, estes termos têm significados distintos do ponto de vista médico. Compreender a diferença entre tontura e vertigem é o primeiro passo para identificar a potencial causa subjacente e determinar a necessidade de avaliação profissional.

Estes sintomas, embora frequentemente benignos e de curta duração, podem ser bastante incapacitantes e afetar significativamente a qualidade de vida. Em alguns casos, podem indicar a presença de condições médicas mais graves que requerem atenção. Este artigo explora as causas mais comuns de tonturas e vertigens, a sua distinção e, crucially, os sinais de alerta que indicam quando é fundamental procurar aconselhamento médico.

O que são tonturas e vertigens?

É fundamental distinguir entre tontura e vertigem, pois estas representam experiências sensoriais diferentes e apontam para tipos distintos de problemas.

Tontura

A tontura é uma sensação geral de aturdimento, desmaio iminente, instabilidade ou "cabeça oca". Pode ser descrita como uma sensação de desequilíbrio sem a impressão de movimento rotatório. Não há uma ilusão de movimento. Pessoas que se sentem tontas podem descrever-se como "instáveis" ou "desorientadas".

Vertigem

A vertigem, por outro lado, é uma sensação específica de movimento rotatório — seja a pessoa a sentir que o ambiente está a girar à sua volta, seja a sentir que ela mesma está a girar. É uma ilusão de movimento que frequentemente se acompanha de náuseas, vómitos e dificuldade em manter o equilíbrio. A vertigem é um sintoma, não uma doença em si, e é geralmente causada por um problema no sistema vestibular, o sistema que regula o equilíbrio.

Causas comuns de tonturas

As tonturas podem ter uma vasta gama de causas, muitas delas relativamente benignas. No entanto, é importante investigá-las, especialmente se forem recorrentes ou intensas.

1. Hipotensão ortostática

Esta é uma condição em que a tensão arterial desce abruptamente ao mudar de posição (por exemplo, ao levantar-se rapidamente de uma posição sentada ou deitada). A diminuição do fluxo sanguíneo para o cérebro causa uma sensação transitória de tontura ou "cabeça leve". É particularmente comum em idosos e em pessoas que tomam certos medicamentos.

2. Desidratação

Uma ingestão insuficiente de líquidos pode levar à desidratação, que por sua vez diminui o volume sanguíneo e a tensão arterial, resultando em tonturas e fraqueza.

3. Baixa de açúcar no sangue (hipoglicemia)

Para pessoas com diabetes, ou mesmo para aquelas sem a doença que passam longos períodos sem comer, a queda nos níveis de glicose no sangue pode causar tonturas, suores, tremores e confusão. Leia mais sobre hipoglicemia aqui.

4. Ansiedade e ataques de pânico

Problemas de saúde mental, como ansiedade generalizada, ataques de pânico e hiperventilação, podem desencadear tonturas. A respiração rápida e superficial (hiperventilação) altera os níveis de dióxido de carbono no sangue, levando a aturdimento e formigamento.

5. Certos medicamentos

Muitos fármacos podem ter as tonturas como efeito secundário. Exemplos incluem medicamentos para a tensão arterial (anti-hipertensores), diuréticos, sedativos, antidepressivos e alguns medicamentos para alergias.

6. Problemas cardíacos

Condições que afetam o coração, como arritmias (ritmos cardíacos irregulares), insuficiência cardíaca ou um ataque cardíaco, podem reduzir o fluxo sanguíneo para o cérebro, causando tonturas e desmaios.

Causas comuns de vertigens

A vertigem é quase sempre um sinal de um problema no sistema vestibular, que inclui o ouvido interno e as suas ligações ao cérebro.

1. Vertigem Posicional Paroxística Benigna (VPPB)

Esta é a causa mais comum de vertigem e é desencadeada por mudanças específicas na posição da cabeça. É causada pelo deslocamento de pequenos cristais de carbonato de cálcio (otólitos ou "pedras de ouvido") dentro dos canais semicirculares do ouvido interno. Os episódios são breves (geralmente menos de um minuto) e intensos, associados a náuseas e nistagmo (movimento involuntário dos olhos).

2. Labirintite e Neuronite Vestibular

Ambas são inflamações do ouvido interno.

  • Labirintite: Envolve a inflamação do labirinto (que contém tanto o sistema vestibular como a cóclea, responsável pela audição), sendo que se manifesta com vertigem intensa, náuseas, vómitos e, muitas vezes, perda auditiva e zumbidos num ouvido. Geralmente é causada por uma infeção viral ou, menos frequentemente, bacteriana.
  • Neuronite Vestibular: Afeta o nervo vestibular, que transmite informações de equilíbrio do ouvido interno para o cérebro. Causa vertigem súbita e severa, náuseas e vómitos, mas sem perda auditiva ou zumbidos. Também é geralmente viral.

3. Doença de Ménière

Esta condição crónica é caraterizada pela acumulação excessiva de líquido no ouvido interno (hidropsia endolinfática). Os sintomas incluem ataques súbitos e imprevisíveis de vertigem rotatória intensa, zumbidos (tinnitus), sensação de plenitude auricular e perda auditiva flutuante, geralmente unilateral. Os ataques podem durar horas.

4. Enxaqueca Vestibular

Pessoas que sofrem de enxaquecas podem ter ataques de vertigem sem dor de cabeça, ou com dor de cabeça concomitante ou posterior. A vertigem pode durar de segundos a dias e pode ser acompanhada de tonturas, desequilíbrio e sensibilidade a luzes e sons.

5. Acidente Vascular Encefálico (AVE) ou Acidente Isquémico Transitório (AIT)

Embora menos comum, a vertigem pode ser um sintoma de um problema neurológico central, como um AVE ou AIT, especialmente se associada a outros sintomas neurológicos (como dormência, fraqueza, visão dupla, dificuldade em falar ou andar). Nestes casos, a vertigem é frequentemente descrita como parte de uma experiência de desequilíbrio e instabilidade. Veja mais sobre os sintomas de AVC aqui.

6. Tumores

Raramente, tumores no cerebelo ou no nervo vestibular (como um schwannoma vestibular ou neuroma acústico) podem causar vertigem, bem como perda auditiva e outros sintomas neurológicos.

Sintomas associados e sinais de alerta

Para além da tontura ou vertigem propriamente dita, determinados sintomas acompanhantes podem fornecer pistas importantes sobre a causa subjacente e o seu grau de gravidade.

Sintoma OcorrentePossível IndicaçãoGravidade
Vertigem, náuseas, vómitos, nistagmo, perda auditiva, zumbidoProblemas do ouvido interno (ex: Meniere, labirintite)Moderada a grave, requer avaliação
Tontura ao levantar-se, sensação de desmaio iminenteHipotensão ortostática, desidratação, efeitos de medicaçãoGeralmente ligeira, mas investigar causa
Tontura, suores, tremores, confusãoHipoglicemiaModerada, requer correção dos níveis de açúcar
Tontura, palpitações, dor no peito, falta de arProblema cardíacoGrave, requer atenção médica imediata
Vertigem súbita e intensa, dificuldade em falar, visão dupla, dormência/fraqueza num lado do corpo, descoordenaçãoAVE/AIT, problema neurológico centralMUITO GRAVE, EMERGÊNCIA MÉDICA (chamar 112)
Vertigem com dor de cabeça forte e nunca antes sentidaHemorragia cerebral, problemas gravesMuito grave, emergência médica
Tontura/vertigem com febre alta e rigidez do pescoçoMeningiteGrave, requer atenção médica imediata
Tonturas/vertigens crónicas ou com agravamento progressivoDiversas condições crónicas (ansiedade, anemia, doenças autoimunes)Variável, requer avaliação médica

É crucial estar atento aos sinais de alerta que indicam uma condição mais grave. A presença de qualquer um dos sintomas na última linha da tabela (AVE/AIT) exige uma procura imediata de ajuda médica.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico de tonturas e vertigens começa com uma história clínica detalhada e um exame físico completo. O profissional de saúde irá questionar sobre:

  • A natureza exata dos sintomas (é tontura ou vertigem? Sente que o mundo gira ou que vai desmaiar?)
  • A duração e frequência dos episódios
  • Fatores desencadeantes (mudanças de posição, stress, ingestão de alimentos)
  • Sintomas associados (náuseas, vómitos, alterações auditivas, dor de cabeça, fraqueza)
  • Histórico médico (doenças crónicas, medicamentos tomados)

Durante o exame físico, o médico pode realizar:

  • Avaliação da tensão arterial em diferentes posições (deitado, sentado, em pé)
  • Exame neurológico para verificar reflexos, coordenação, força muscular, equilíbrio e movimentos oculares (procurando nistagmo)
  • Exame otológico para verificar o ouvido e realizar testes de audição
  • Manobras específicas, como a Manobra de Dix-Hallpike para diagnosticar VPPB.

Dependendo da suspeita clínica, podem ser solicitados exames adicionais:

  • Análises sanguíneas: para verificar anemia, desidratação, níveis de açúcar, função tiroideia.
  • Audiograma: para avaliar a audição.
  • Eletronistagmografia (ENG) ou Videonistagmografia (VNG): para avaliar a função do sistema vestibular e os movimentos oculares.
  • MRI ou TC da cabeça: em casos de suspeita de causas neurológicas (tumores, AVE/AIT).
  • Eletrocardiograma (ECG): para avaliar a função cardíaca.

O tratamento para tonturas e vertigens é direcionado à causa subjacente:

  1. VPPB: A Manobra de Epley é um tratamento fisioterapêutico eficaz que reposiciona os cristais do ouvido interno.
  • Passo a passo da Manobra de Epley (para o ouvido direito, por exemplo):
  1. Sente-se na cama com as pernas esticadas, virado para a frente.
  2. Vire a cabeça 45 graus para a direita.
  3. Deite-se rapidamente de costas, mantendo a cabeça virada e com almofadas debaixo dos ombros para que a cabeça fique inclinada para trás. Mantenha esta posição por 30 segundos.
  4. Vire a cabeça 90 graus para a esquerda, sem a levantar, de forma que o olhar fique 45 graus para a esquerda. Mantenha por 30 segundos.
  5. Vire o corpo todo para a esquerda, mantendo a cabeça na posição, de forma que esteja deitado de lado e a olhar para o chão. Mantenha por 30 segundos.
  6. Sente-se lentamente.

Recomenda-se realizar esta manobra sob orientação de um profissional de saúde inicialmente.

  1. Labirintite/Neuronite Vestibular: Repouso, hidratação, e medicamentos para controlar náuseas, vómitos e a vertigem (antieméticos, supressores vestibulares). Em alguns casos, corticosteróides.
  1. Doença de Ménière: Restrição de sal, diuréticos, e em casos severos, injetáveis no ouvido interno ou cirurgia.
  1. Hipotensão ortostática: Aconselhamento sobre hidratação adequada, levantar-se lentamente, meias de compressão, e ajuste da medicação, se necessário.
  1. Ansiedade: Terapia cognitivo-comportamental, técnicas de relaxamento ou medicação ansiolítica.
  1. Outras causas: O tratamento será específico para a condição identificada (por exemplo, controlo da diabetes, tratamento de problemas cardíacos, ajuste de medicação).

Quando consultar o médico

Embora muitas vezes benignas, as tonturas e vertigens requerem avaliação médica numa série de situações, especialmente quando associadas a sinais de alerta ou quando afetam significativamente a qualidade de vida.

Deve consultar um médico nas seguintes situações:

  • Tonturas ou vertigens súbitas e intensas sem causa aparente.
  • Se a vertigem for tão intensa que não consegue andar ou manter o equilíbrio.
  • Se for acompanhada por sintomas neurológicos como:
  • Dor de cabeça súbita e intensa, especialmente se for diferente de dores de cabeça habituais.
  • Visão dupla ou perda de visão.
  • Dificuldade em falar ou engolir (disfagia).
  • Fraqueza ou dormência na face, braço ou perna, especialmente se for num lado do corpo.
  • Dificuldade em movimentar um braço ou uma perna (paresia).
  • Perda de consciência.
  • Confusão ou alterações do estado mental.
  • Se for acompanhada de dor no peito, palpitações, falta de ar ou suores frios.
  • Se tiver febre alta e rigidez no pescoço.
  • Se as tonturas/vertigens forem recorrentes ou persistentes e afetarem a sua capacidade de realizar atividades diárias.
  • Se houver perda auditiva súbita ou zumbido (tinnitus) num dos ouvidos.
  • Se estiver a tomar medicamentos que possam estar a causar os sintomas.
  • Se tiver mais de 50 anos e desenvolver tonturas/vertigens de forma súbita ou inexplicável.

Em caso de qualquer um dos sinais de alerta graves (especialmente os associados a AVC), deve procurar assistência médica de emergência imediata (ligar 112).

Perguntas frequentes

Tonturas e vertigens podem ser um sinal de algo grave?

Sim, embora muitas vezes sejam benignas, tonturas e vertigens podem, em alguns casos, indicar condições mais graves, como um acidente vascular cerebral, problemas cardíacos, hemorragia cerebral ou certos tumores. É crucial estar atento a sinais de alerta como fraqueza unilateral, visão dupla, ou dor de cabeça súbita e intensa.

Qual a diferença entre tontura e vertigem?

A tontura é uma sensação geral de aturdimento, desmaio iminente ou desequilíbrio sem a ilusão de movimento. A vertigem, por outro lado, é a sensação específica de movimento rotatório — sentir que o ambiente ou a própria pessoa está a girar.

O que devo fazer se tiver um ataque de vertigem intenso?

Se tiver um ataque de vertigem intenso, tente sentar-se ou deitar-se imediatamente para evitar quedas. Evite movimentos bruscos da cabeça, fixe o olhar num ponto fixo e procure um ambiente calmo e escuro. Se os sintomas forem novos, severos, ou acompanhados de sinais de alerta (fraqueza, visão dupla, dor de cabeça súbita), procure assistência médica de emergência.

As tonturas podem ser causadas por stress ou ansiedade?

Sim, o stress e a ansiedade são causas comuns de tonturas. A hiperventilação, um sintoma comum de ataques de pânico ou ansiedade, pode alterar os níveis de dióxido de carbono no sangue, levando a aturdimento e tonturas.

Quando devo preocupar-me se a tontura é apenas uma "cabeça leve"?

Embora a sensação de "cabeça leve" seja muitas vezes benigna (por exemplo, ao levantar-se rapidamente), deve preocupar-se se for persistente, se ocorrer frequentemente sem causa aparente, ou se for acompanhada de desmaios, palpitações ou dor no peito. Nestes casos, é aconselhável procurar avaliação médica.

A desidratação pode causar tonturas?

Sim, a desidratação é uma causa comum de tonturas. Uma ingestão insuficiente de líquidos pode levar a uma diminuição do volume sanguíneo e da tensão arterial, o que, por sua vez, pode causar tonturas e sensação de fraqueza.

Fontes e Referências

  1. Direção-Geral da Saúde (DGS). (2020). Plano de Saúde para o Acidente Vascular Cerebral. Disponível em: https://www.dgs.pt/saude-a-z/avc.aspx
  2. National Health Service (NHS). (2023). Dizziness. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/dizziness/
  3. Mayo Clinic. (2023). Dizziness. Disponível em: https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/dizziness/symptoms-causes/syc-20371787
  4. Manual MSD (Versão para Profissionais de Saúde). (2023). Tonturas e Vertigens. Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C%Burbios-neurol%C3%B3gicos/tonturas-e-vertigem/tonturas-e-vertigem
  5. British Medical Journal (BMJ Best Practice). (2023). Vertigo. Disponível em: https://bestpractice.bmj.com/topics/en-gb/700
  6. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). (2021). Dizziness: assessment and management. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng93