Prevenção

Vacinas na Gravidez: Quais Tomar e em Que Semanas

Na gravidez, a saúde da mãe e do bebé é a prioridade máxima, e a vacinação desempenha um papel crucial nessa proteção. As vacinas recomendadas em Portugal …

Na gravidez, a saúde da mãe e do bebé é a prioridade máxima, e a vacinação desempenha um papel crucial nessa proteção. As vacinas recomendadas em Portugal durante a gestação, que beneficiam não só a grávida mas também o recém-nascido, incluem a vacina da tosse convulsa (DTPa) e a vacina da gripe (influenza), sendo a sua administração cuidadosamente agendada em semanas específicas para maximizar a sua eficácia e segurança.

A decisão de vacinar durante a gravidez é uma medida preventiva fundamental, baseada em evidências científicas sólidas e nas recomendações das autoridades de saúde. Este guia detalhado visa esclarecer quais vacinas são importantes, em que fase da gravidez devem ser administradas e porquê, ajudando as futuras mães a tomar decisões informadas em conjunto com o seu médico.

Índice

Porquê Vacinar na Gravidez?

A vacinação durante a gravidez é uma estratégia de saúde pública extremamente eficaz para proteger tanto a mãe como o bebé contra doenças infeciosas graves. Durante este período, o sistema imunitário da grávida sofre alterações, tornando-a potencialmente mais vulnerável a certas infeções e às suas complicações. Além disso, algumas doenças, quando contraídas na gravidez, podem ter consequências sérias para o desenvolvimento fetal ou para o recém-nascido.

O principal objetivo das vacinas na gravidez é duplo:

  1. Proteger a grávida: Prevenir doenças que podem ser mais graves durante a gestação, como a gripe, e que podem levar a complicações sérias para a mãe e para o bebé (parto prematuro, baixo peso à nascença).
  2. Proteger o recém-nascido: A mãe, ao ser vacinada, produz anticorpos que são transferidos para o bebé através da placenta. Esta "imunidade passiva" oferece ao recém-nascido uma proteção crucial nos primeiros meses de vida, um período em que o seu sistema imunitário ainda não está totalmente desenvolvido e antes que possa ser vacinado diretamente contra essas doenças. É o caso paradigmático da tosse convulsa, uma doença altamente contagiosa e potencialmente fatal para bebés pequenos.

Vacinas Recomendadas e o Calendário de Vacinação

As vacinas recomendadas em Portugal para a gravidez são cuidadosamente selecionadas pela Direção-Geral da Saúde (DGS) e outras autoridades de saúde, baseadas em rigorosos estudos de segurança e eficácia.

Vacina contra a Tosse Convulsa (DTPa)

A vacina DTPa (difteria, tétano e tosse convulsa acelular) é uma das mais importantes durante a gravidez. A tosse convulsa (pertussis) é uma doença respiratória altamente contagiosa e pode ser muito grave, especialmente em bebés com menos de 6 meses, nos quais pode causar apneia (paragem da respiração), pneumonia, convulsões, lesões cerebrais e até a morte.

  • Quando tomar: Recomenda-se que a vacina DTPa seja administrada entre as 20 e as 32 semanas de gestação. No entanto, se não for administrada neste período, pode ser administrada até ao final da gravidez. A vacinação deve ocorrer em cada gravidez, mesmo que a mulher tenha sido vacinada em gestações anteriores ou recentemente.
  • Porquê neste período: A administração neste intervalo permite que o corpo da mãe produza um nível ótimo de anticorpos, que serão transferidos eficazmente para o feto, garantindo que o bebé nasça com proteção.
  • Onde tomar: Nos cuidados de saúde primários (Centro de Saúde).

Vacina contra a Gripe (Influenza)

A gripe é mais do que um "resfriado forte" para as grávidas. Devido às alterações no sistema imunitário, coração e pulmões durante a gravidez, as mulheres grávidas têm um risco aumentado de desenvolver complicações graves da gripe, como pneumonia, internamento hospitalar e até morte. A gripe na gravidez também está associada a um maior risco de parto prematuro e baixo peso à nascença.

  • Quando tomar: A vacina da gripe é recomendada para todas as grávidas, independentemente da fase da gestação, durante a época de gripe (geralmente entre outubro e março em Portugal). Pode ser administrada em qualquer trimestre.
  • Porquê em qualquer trimestre: A urgência de proteger a grávida e o feto contra o vírus da gripe sobrepõe-se à necessidade de um período específico, sendo a segurança da vacina comprovada em todas as fases da gestação.
  • Onde tomar: Nos cuidados de saúde primários (Centro de Saúde) ou em algumas farmácias aderentes.

Vacina contra a COVID-19

A vacinação contra a COVID-19 é fortemente recomendada para mulheres grávidas e a amamentar. A gravidez é considerada um fator de risco para a doença grave por COVID-19, com maior probabilidade de hospitalização, internamento em cuidados intensivos, e resultados adversos da gravidez, como parto prematuro.

  • Quando tomar: Pode ser administrada em qualquer fase da gravidez, de acordo com as recomendações do Plano de Vacinação COVID-19 em vigor e as orientações da DGS.
  • Porquê em qualquer fase: A proteção contra a COVID-19 é crucial devido aos riscos acrescidos para a grávida e o feto. Os estudos de segurança e eficácia comprovam que a vacina é segura e eficaz durante a gestação.
  • Onde tomar: Nos centros de vacinação ou farmácias aderentes, conforme as campanhas em curso.

A tabela seguinte resume as recomendações de vacinação na gravidez em Portugal:

VacinaPeríodo Recomendado da GravidezMotivo Principal da Vacinação
DTPa (Tosse Convulsa)Entre as 20 e as 32 semanas (até ao final da gravidez, se necessário)Proteger o recém-nascido da tosse convulsa através de anticorpos maternos.
Gripe (Influenza)Em qualquer trimestre, durante a época de gripe (outubro-março)Proteger a grávida de complicações graves e o recém-nascido (imunidade passiva).
COVID-19Em qualquer trimestre, de acordo com as diretrizes em vigorProteger a grávida de doença grave e complicações associadas à COVID-19.

Vacinas a Evitar na Gravidez

Embora a maioria das vacinas sejam seguras ou recomendadas na gravidez, existem algumas que são contraindicadas por conterem vírus vivos atenuados, que, teoricamente, podem causar infeção no feto. No entanto, o risco real é muito baixo e, em caso de exposição inadvertida, não se recomenda a interrupção da gravidez.

As vacinas geralmente contraindicadas na gravidez incluem:

  • Sarampo, Papeira e Rubéola (VASPR): Contém vírus vivos atenuados. Recomenda-se que as mulheres que planeiam engravidar e não estão imunizadas contra a rubéola se vacinem pelo menos 1 mês antes de engravidar.
  • Varicela: Também é uma vacina de vírus vivo atenuado. Deve ser administrada antes da gravidez, com um intervalo de 1 mês antes de tentar engravidar.
  • Febre Amarela: Embora seja uma vacina de vírus vivo, pode ser considerada em situações de alto risco de exposição e quando o benefício supera o risco, após avaliação médica rigorosa.

Se uma mulher for inadvertidamente vacinada com uma destas vacinas no início da gravidez, é importante discutir o risco com o seu médico, mas, como referido, o risco para o feto é geralmente considerado muito baixo e raramente justifica a interrupção.

Segurança das Vacinas na Gravidez

A segurança das vacinas na gravidez é uma preocupação primordial e é extensivamente estudada e monitorizada. As vacinas recomendadas (DTPa, gripe e COVID-19) são vacinas inativadas ou de subunidades/RNAm, o que significa que não contêm vírus vivos e, portanto, não podem causar a doença que visam prevenir.

  • Evidência científica: A segurança destas vacinas é suportada por décadas de investigação e experiência em milhões de mulheres grávidas. Organizações como a DGS, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a Mayo Clinic, endossam estas vacinas.
  • Vigilância contínua: Os efeitos secundários das vacinas são monitorizados de forma contínua através de sistemas de farmacovigilância, como o Infarmed em Portugal, que recolhem e avaliam relatos de eventos adversos.
  • Efeitos secundários: Os efeitos secundários mais comuns são geralmente leves e autolimitados, semelhantes aos observados em não-grávidas: dor, vermelhidão e inchaço no local da injeção, febre baixa, dores de cabeça ou musculares.

É crucial discutir quaisquer preocupações sobre a vacinação com o seu médico ou enfermeiro, que poderão fornecer informações personalizadas e baseadas nas mais recentes evidências.

Como Obter as Vacinas

A obtenção das vacinas recomendadas na gravidez é um processo simples e acessível no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

  1. Consulta de Vigilância da Gravidez: Durante as consultas de rotina com o seu médico de família ou obstetra, o tema da vacinação será abordado. É o momento ideal para esclarecer dúvidas e receber a prescrição, se necessário.
  2. Agendamento no Centro de Saúde: A vacina da tosse convulsa (DTPa) e da gripe (se na época) são administradas gratuitamente nos Centros de Saúde. Pode agendar a sua vacinação diretamente na secretaria ou através dos contactos do seu Centro de Saúde. Algumas unidades de saúde podem ter horários específicos para a vacinação de grávidas.
  3. Vacina da COVID-19: As informações sobre a vacinação contra a COVID-19 são atualizadas regularmente pela DGS. As grávidas podem ser convocadas ou procurar agendamento conforme as diretrizes em vigor.
  4. Cartão de Grávida/Boletim de Saúde: Certifique-se de que a vacina é registada no seu Cartão de Grávida ou Boletim de Saúde. Esta informação é importante para si e para os profissionais de saúde que a acompanham.
  5. SNS 24: Para dúvidas gerais sobre vacinação ou para informações sobre como aceder aos serviços de saúde, pode contactar o SNS 24 através do número 808 24 24 24.
  6. Portal do Cidadão: O Portal SNS Cidadão pode também fornecer informações úteis sobre a sua saúde e vacinação.

Passos práticos para a vacinação:

  1. Fale com o seu médico/enfermeiro: Na próxima consulta de vigilância da gravidez, discuta quais vacinas são recomendadas para si, tendo em conta o seu historial clínico e a fase da gravidez.
  2. Verifique a época da gripe: Se estiver grávida durante a época de gripe (outubro a março), pergunte sobre a vacina da gripe, independentemente do seu trimestre.
  3. Agende a vacina DTPa: Certifique-se de que agenda a vacina DTPa entre as 20 e as 32 semanas de gestação.
  4. Pergunte sobre a COVID-19: Mantenha-se informada sobre as recomendações mais recentes da DGS para a vacinação contra a COVID-19 em grávidas.
  5. Registe as vacinas: Confirme sempre que a vacina é registada no seu boletim de saúde da grávida.
  6. Descanse e hidrate-se: Após a vacinação, é normal sentir alguns efeitos secundários leves. Descanse e beba líquidos.

Tratamento e o que pode fazer em casa

Após a vacinação, é comum sentir alguns efeitos secundários leves. Estes são sinais de que o seu sistema imunitário está a reagir à vacina e a desenvolver proteção.

Sintomas comuns e o que fazer:

  • Dor, vermelhidão, inchaço no local da injeção:
  • Aplique compressas frias na área.
  • Mantenha o braço em movimento para ajudar a diminuir a dor.
  • Evite esfregar vigorosamente o local da injeção.
  • Febre baixa, dores de cabeça, dores musculares, cansaço:
  • Descanse bastante e beba líquidos.
  • Pode tomar paracetamol, que é seguro durante a gravidez para alívio da dor e febre. Siga sempre as instruções de dosagem e, em caso de dúvida, consulte o seu médico ou farmacêutico.
  • Tonturas ou desmaios:
  • Embora menos comum, pode ocorrer logo após a vacinação. Permaneça sentada por alguns minutos após a injeção. Se se sentir tonta, deite-se com os pés elevados.

Estes sintomas geralmente desaparecem por si próprios em 1 a 2 dias. Se os sintomas piorarem ou não melhorarem, deve contactar o seu médico ou enfermeiro.

Quando ir à urgência

Embora reações graves às vacinas sejam raras, é importante estar ciente dos sinais de alerta. Procure atendimento médico de urgência se experienciar:

  • Dificuldade respiratória, pieira ou chiado.
  • Inchaço da face e/ou garganta.
  • Urticária generalizada ou erupção cutânea grave.
  • Palpitações ou batimento cardíaco acelerado.
  • Tontura extrema ou desmaio persistente.
  • Febre alta (acima de 39°C) que não baixa com paracetamol.
  • Sinais de uma reação alérgica grave (anafilaxia), que geralmente ocorre nos primeiros minutos ou horas após a vacinação.
  • Qualquer preocupação urgente com a saúde do seu bebé (diminuição de movimentos fetais, hemorragia vaginal, contrações dolorosas). Embora não diretamente relacionados com a vacina, são sinais que exigem avaliação médica imediata.

Perguntas frequentes

As vacinas na gravidez são seguras para o bebé?

Sim, as vacinas recomendadas na gravidez (DTPa, gripe, COVID-19) são consideradas muito seguras para o bebé. Elas são formuladas com componentes inativados ou de subunidades/RNAm, o que significa que não podem causar a doença. Os benefícios de proteger o bebé através da imunidade passiva superam largamente quaisquer riscos teóricos.

Preciso de tomar a vacina da tosse convulsa em todas as gravidezes?

Sim, é recomendado que tome a vacina da tosse convulsa (DTPa) em cada gravidez, idealmente entre as 20 e 32 semanas de gestação. Isto garante a transferência de um nível ótimo de anticorpos para cada bebé, independentemente de ter sido vacinada em gestações anteriores ou recentemente.

Se eu já tive gripe ou COVID-19, preciso da vacina na gravidez?

Sim, mesmo que já tenha tido gripe ou COVID-19, a vacinação na gravidez ainda é recomendada. A imunidade natural pode não ser tão robusta ou duradoura quanto a conferida pela vacina, e os vírus podem evoluir. A vacinação oferece uma proteção mais fiável para si e para o seu bebé.

Quais são os efeitos secundários mais comuns das vacinas na gravidez?

Os efeitos secundários mais comuns são leves e semelhantes aos de não-grávidas: dor, vermelhidão e inchaço no local da injeção, febre baixa, dores de cabeça ou musculares. Estes sintomas geralmente desaparecem em 1-2 dias. Reações alérgicas graves são extremamente raras.

Posso amamentar depois de ser vacinada na gravidez?

Sim, pode e deve continuar a amamentar após a vacinação. Não só é seguro, como também os anticorpos produzidos pela mãe em resposta à vacina podem ser transferidos para o bebé através do leite materno, proporcionando uma camada adicional de proteção ao lactente.

Leia também

Fontes e Referências

  1. Direção-Geral da Saúde (DGS). Normas e Orientações. https://www.dgs.pt/ (Consultar as normas e orientações específicas sobre vacinação na gravidez, Calendário Nacional de Vacinação).
  2. Serviço Nacional de Saúde (SNS). Portal SNS. https://www.sns.gov.pt/ (Informações gerais sobre vacinação e cuidados de saúde).
  3. Mayo Clinic. Pregnancy and flu shots: What you need to know. https://www.mayoclinic.org/healthy-lifestyle/pregnancy-week-by-week/in-depth/pregnancy-and-flu-shots/art-20044085
  4. National Health Service (NHS). Vaccines in pregnancy. https://www.nhs.uk/pregnancy/keeping-well/vaccinations/
  5. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Vaccines During Pregnancy. https://www.cdc.gov/pregnancy/vaccinations.html
  6. Manual MSD Profissional. Vacinação durante a gravidez. https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/ginecologia-e-obstetr%C3%ADcia/abordagem-%C3%A0-mulher-gr%C3%A1vida-e-pacientes-com-riscos-na-gravidez/vacina%C3%A7%C3%A3o-durante-a-gravidez