Vacina da gripe: quem deve tomar e quando
A vacina contra a gripe é uma medida preventiva crucial que desempenha um papel fundamental na proteção da saúde pública. A gripe, ou influenza, é uma infeção respiratória aguda que, embora muitas vezes percebida como uma doença benigna, pode levar a complicações sérias, hospitalização e até mesmo à morte, especialmente em grupos de risco. A sua natureza viral e a capacidade de sofrer mutações anuais tornam a vacinação uma ferramenta dinâmica e essencial para mitigar o seu impacto.
Entender quem beneficia mais da vacina e qual o momento ideal para a sua administração é vital para maximizar a sua eficácia e assegurar a proteção das comunidades. Este artigo pretende desmistificar a vacinação contra a gripe, fornecendo informações claras e baseadas em evidências sobre a sua importância, os grupos prioritários e os aspetos práticos associados à sua toma anual.
O que é a gripe e por que é importante a vacinação?
A gripe é uma doença respiratória contagiosa causada pelos vírus influenza. Existem diferentes tipos de vírus influenza (A, B, C e D), sendo os tipos A e B os responsáveis pelas epidemias sazonais que afetam a população humana. Os sintomas comuns incluem febre alta, tosse (geralmente seca), dores musculares, dores de cabeça, mal-estar geral, rinorreia (corrimento nasal) e dor de garganta. Em alguns casos, pode haver vómitos e diarreia, especialmente em crianças.
Embora a maioria das pessoas se recupere da gripe em uma ou duas semanas, sem necessidade de cuidados médicos específicos, em certos indivíduos, a doença pode evoluir para complicações graves. Estas incluem pneumonia (viral ou bacteriana secundária), bronquiolite (em crianças pequenas), agravamento de doenças crónicas preexistentes (como asma, doença pulmonar obstrutiva crónica, diabetes, doenças cardíacas) e, em casos extremos, falência respiratória ou cardíaca, resultando em morte.
A importância da vacinação reside na sua capacidade de prevenir a infeção ou, caso a infeção ocorra, de atenuar a gravidade da doença e reduzir o risco de complicações. Anualmente, os vírus da gripe sofrem mutações, o que implica que a composição da vacina seja ajustada para incluir as estirpes virais que se prevêem ser as mais predominantes na estação seguinte. Por este motivo, a vacinação deve ser repetida todos os anos. A imunidade desenvolvida após a vacinação ou infeção anterior por gripe tende a ser transitória e específica para as estirpes virais circulantes, reforçando a necessidade da vacinação sazonal.
A vacinação em massa não só protege o indivíduo vacinado, mas também contribui para a imunidade de grupo, ou imunidade de rebanho. Ao vacinar um elevado número de pessoas, reduz-se a circulação do vírus na comunidade, protegendo indiretamente aqueles que não podem ser vacinados (como bebés muito pequenos ou pessoas com certas contraindicações médicas). Este é um conceito fundamental na saúde pública e sublinha o caráter solidário da vacinação.
Quem deve tomar a vacina da gripe? Grupos prioritários
A Direção-Geral da Saúde (DGS) e outras organizações de saúde internacional identificam anualmente os grupos prioritários para a vacinação, com base no risco de desenvolver complicações graves ou de transmitir a doença a pessoas vulneráveis. A vacinação gratuita é disponibilizada anualmente a estes grupos em Portugal.
Grupos de risco para os quais a vacinação é fortemente recomendada:
- Pessoas com 65 ou mais anos de idade: O sistema imunitário tende a ser menos responsivo com o envelhecimento, tornando os idosos mais suscetíveis a complicações graves.
- Doentes crónicos e imunodeprimidos:
- Doenças cardiovasculares (exceto hipertensão arterial isolada).
- Doenças respiratórias crónicas (incluindo asma grave e DPOC).
- Diabetes mellitus (tipo 1 e tipo 2).
- Doenças hepáticas crónicas.
- Doenças renais crónicas (incluindo em diálise).
- Doenças neurológicas ou neuromusculares com compromisso respiratório.
- Doenças hemato-oncológicas (leucemias, linfomas, mieloma).
- Cancro em quimioterapia ou radioterapia ativas.
- Transplantados (órgão sólido ou medula óssea).
- Infeção por VIH.
- Esplenectomizados ou com asplenia funcional.
- Doenças autoimunes.
- Obesidade mórbida (IMC ≥ 40 kg/m²).
- Grávidas: A gripe durante a gravidez pode causar complicações graves para a mãe e para o feto. A vacina é segura e eficaz durante qualquer trimestre da gravidez e protege também o bebé nos primeiros meses de vida.
- Crianças entre os 6 meses e os 5 anos de idade: Embora não sejam um grupo de risco para complicações graves como os idosos, as crianças são importantes vetores de transmissão do vírus. A vacinação ajuda a reduzir a circulação viral na comunidade.
- Profissionais de saúde e outros prestadores de cuidados: A vacinação é essencial para proteger os próprios profissionais e para evitar a transmissão do vírus a pacientes vulneráveis em ambientes de saúde.
- Outros profissionais: Inclui profissionais que mantêm contacto regular com pessoas com alto risco de complicações, como trabalhadores de lares de idosos, cuidadores informais, bombeiros e elementos das forças de segurança.
Mesmo fora destes grupos prioritários, qualquer pessoa com mais de 6 meses de idade pode ser vacinada contra a gripe. É uma decisão individual que pode trazer benefícios para a saúde e bem-estar, reduzindo o risco de doença e de faltar ao trabalho ou à escola.
Quando tomar a vacina da gripe? O calendário de vacinação
O momento ideal para tomar a vacina contra a gripe é antes do início da época gripal, que geralmente ocorre no outono e inverno no hemisfério norte. Em Portugal, a campanha de vacinação sazonal começa, tradicionalmente, em setembro ou outubro e prolonga-se até dezembro, ou até esgotarem as doses disponíveis.
A razão para esta janela temporal deve-se ao facto de que:
- Desenvolvimento da imunidade: O corpo leva cerca de duas semanas após a vacinação para desenvolver uma resposta imune protetora contra os vírus da gripe. Vacinar-se em outubro significa estar protegido antes do pico da atividade gripal, que costuma acontecer entre dezembro e fevereiro.
- Duração da proteção: A proteção conferida pela vacina da gripe dura cerca de 6 a 8 meses. Vacinar demasiado cedo (por exemplo, em agosto) pode significar que a imunidade comece a diminuir no final da época gripal, quando o vírus ainda pode estar a circular. No entanto, o mais importante é vacinar-se, mesmo que seja mais tarde na estação, pois a vacina ainda pode oferecer proteção.
Passos para a vacinação anual:
- Verifique a elegibilidade: Confirme se pertence a algum dos grupos de risco que têm direito à vacinação gratuita. Caso contrário, pode adquirir a vacina em farmácia com receita médica.
- Contacte o seu médico ou enfermeiro: Fale com o seu profissional de saúde assistente (no centro de saúde ou médico de família) para agendar a sua vacinação. Em determinadas fases da campanha, as farmácias também administram a vacina.
- Mantenha-se informado: A DGS e os meios de comunicação social divulgam anualmente informações sobre o início e as fases da campanha de vacinação. Esteja atento a estas informações.
- Após a vacinação: Continue a praticar medidas de higiene (lavagem das mãos, etiqueta respiratória) para reforçar a proteção. Lembre-se que a vacina protege contra as estirpes de gripe, mas não impede outras infeções respiratórias.
Mais informações sobre a campanha anual e a elegibilidade para a vacina gratuita podem ser encontradas no site da DGS.
Tipos de vacinas contra a gripe disponíveis
Anualmente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emite recomendações sobre as estirpes de vírus influenza que devem ser incluídas na vacina para a época gripal subsequente, com base na vigilância global dos vírus circulantes. Existem, essencialmente, dois tipos principais de vacinas contra a gripe: as vacinas trivalentes e as vacinas quadrivalentes.
Vacinas Trivalentes (VTI)
As vacinas trivalentes protegem contra três estirpes virais da gripe:
- Duas estirpes de vírus influenza A (H1N1 e H3N2).
- Uma estirpe de vírus influenza B.
Historicamente, estas eram as vacinas mais comuns.
Vacinas Quadrivalentes (VQI)
As vacinas quadrivalentes oferecem uma proteção mais abrangente, incluindo:
- Duas estirpes de vírus influenza A (H1N1 e H3N2).
- Duas estirpes de vírus influenza B (de linhagens diferentes, pois duas linhagens de vírus B podem circular simultaneamente).
Atualmente, a maioria das vacinas disponíveis em Portugal e noutros países desenvolvidos são quadrivalentes, pois providenciam uma proteção mais ampla contra as estirpes de gripe B que podem causar doença.
Outros tipos de vacinas e formulações específicas:
- Vacinas de dose elevada (High-dose vaccines): Destinadas especificamente a pessoas com 65 anos ou mais, contêm uma quantidade maior de antigénio para induzir uma resposta imune mais robusta, dado que o sistema imunitário dos idosos pode ser menos reativo.
- Vacinas adjuvadas: Também concebidas para idosos, estas vacinas contêm um adjuvante que ajuda a fortalecer a resposta imune.
- Vacinas de cultura celular ou recombinantes: São produzidas com métodos mais avançados que não dependem da utilização de ovos de galinha, o que pode ser benéfico para pessoas com certas alergias graves a ovos ou para acelerar o processo de produção.
A escolha do tipo de vacina a ser administrada dependerá das recomendações da DGS, da disponibilidade no mercado e das características individuais do utente. Em Portugal, a seleção da vacina disponibilizada no Serviço Nacional de Saúde é baseada em evidência científica e nas recomendações de instituições de saúde internacionais.
É importante frisar que nenhuma vacina de gripe contém vírus vivos capazes de causar a doença da gripe. As vacinas injetáveis contêm vírus inativados (mortos) ou apenas componentes dos vírus, enquanto a vacina nasal, que embora menos comum em Portugal, contém vírus vivos atenuados (enfraquecidos), mas que não conseguem causar a doença.
Para mais informações sobre o funcionamento das vacinas, pode consultar o nosso artigo sobre como funcionam as vacinas e o que nos pode proteger.
Mitos e verdades sobre a vacina da gripe
A vacinação contra a gripe, como outras vacinas, tem sido alvo de muitos mitos e desinformação. É crucial basearmo-nos em factos científicos para tomar decisões informadas sobre a nossa saúde.
Tabela: Mitos e Verdades sobre a Vacina da Gripe
| Mito | Verdade |
| "A vacina da gripe causa gripe." | Falso. As vacinas injetáveis (as mais comuns) contêm vírus inativados ou componentes virais e não podem causar a gripe. Alguns podem sentir sintomas leves como dor no local da injeção, febre baixa ou dores musculares, que são parte da resposta imunitária e não a gripe em si. |
| "É melhor ter a gripe para desenvolver imunidade natural." | Falso. Ter gripe pode causar complicações graves e potencialmente fatais. A imunidade natural, embora eficaz contra a estirpe que causou a infeção, não é superior à proteção conferida pela vacina em termos de segurança e prevenção de doenças graves. A vacina protege sem os riscos da doença. |
| "A eficácia da vacina é muito baixa, por isso não vale a pena." | Falso. A eficácia da vacina varia anualmente, dependendo da correspondência entre as estirpes da vacina e as que circulam. No entanto, mesmo que não previna 100% dos casos, reduz significativamente a gravidade da doença, o risco de hospitalização e morte em pessoas vacinadas. |
| "Se já tive gripe este ano, não preciso de me vacinar." | Falso. A gripe pode ser causada por diferentes estirpes de vírus influenza. Ter uma estirpe não o protege contra outras estirpes que podem circular na mesma época gripal. A vacinação oferece proteção contra as estirpes mais prevalentes. |
| "A vacina da gripe tem efeitos secundários graves." | Falso. A maioria dos efeitos secundários são ligeiros e temporários (dor, vermelhidão ou inchaço no local da injeção, febre baixa, dores de cabeça). As reações alérgicas graves são muito raras. Os benefícios da vacinação superam largamente os riscos potenciais. |
| "Se estou grávida, não devo tomar a vacina da gripe." | Falso. A vacina da gripe é recomendada e segura para mulheres grávidas em qualquer trimestre. Protege a mãe de complicações graves da gripe e oferece proteção ao bebé nos primeiros meses de vida após o nascimento. |
É importante obter informações sobre a vacinação de fontes credíveis e profissionais de saúde, para garantir que as decisões são tomadas com base em dados fiáveis e atuais.
Contraindicações e precauções
A vacina contra a gripe é considerada segura para a maioria das pessoas, mas existem algumas situações em que a vacinação pode ser contraindicada ou exigir precauções especiais.
Contraindicações Absolutas:
- Reação alérgica grave (anafilaxia) a uma dose anterior da vacina contra a gripe: Se o indivíduo teve uma reação alérgica grave a uma dose anterior da vacina, não deve ser vacinado novamente com essa mesma vacina.
- Reação alérgica grave a qualquer componente da vacina: Isto inclui alergias severas a componentes como proteínas de ovo (embora a maioria das vacinas atuais contenha quantidades mínimas e seja segura para a maioria das pessoas com alergia a ovo), gelatina ou antibióticos presentes na vacina. Nesses casos, a vacinação deve ser avaliada por um médico especialista em alergologia ou infecciologia.
Precauções (situações que exigem avaliação médica antes da vacinação):
- Doença aguda moderada ou grave com febre: Nestes casos, a vacinação deve ser adiada até que a pessoa recupere. Uma doença ligeira sem febre (como uma constipação comum) geralmente não é motivo para adiar a vacinação.
- Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nos 6 meses seguintes a uma vacinação contra a gripe anterior: A decisão de vacinar novamente deve ser tomada em consulta com o médico, avaliando os riscos e benefícios. O SGB é uma complicação neurológica muito rara, e a associação com a vacina da gripe é extremamente baixa.
- Alergia ao ovo: A maioria das vacinas de gripe é produzida em ovos de galinha. No entanto, as quantidades de albumina de ovo são geralmente muito baixas e a maioria dos indivíduos com alergia a ovos pode ser vacinada sem problemas. Para reações alérgicas graves a ovos, a vacinação pode ser feita com supervisão médica em ambiente hospitalar, ou podem ser consideradas vacinas que não contenham ovo.
É crucial discutir quaisquer preocupações ou historial médico com o profissional de saúde antes de receber a vacina. Será ele a avaliar a adequação da vacinação e a tomar a melhor decisão para cada caso. Não presuma que uma condição médica impede a vacinação sem antes procurar aconselhamento profissional. A vacina é uma ferramenta essencial na proteção da saúde, e as contraindicações são raras, aplicáveis a uma percentagem muito pequena da população.
Perguntas frequentes
A vacina da gripe protege contra a COVID-19?
Não, a vacina da gripe foi especificamente concebida para proteger contra os vírus influenza. Embora ambas causem doenças respiratórias, são vírus diferentes. Vacinar-se contra a gripe pode, no entanto, ajudar a reduzir a carga sobre os sistemas de saúde durante a época de infeções respiratórias.
Posso tomar a vacina da gripe e a vacina da COVID-19 ao mesmo tempo?
Sim, a Direção-Geral da Saúde e outras autoridades de saúde recomendam que as vacinas da gripe e da COVID-19 (e outros reforços) podem ser administradas no mesmo dia, sem que haja diminuição da eficácia ou aumento de efeitos secundários. É uma estratégia para otimizar a proteção.
Se estou a tomar antibióticos, posso receber a vacina?
Geralmente, sim. A toma de antibióticos por si só não é uma contraindicação para a vacinação contra a gripe. No entanto, se a toma de antibióticos for devido a uma doença aguda grave com febre, a vacinação deve ser adiada até que recupere.
A vacina da gripe anual é gratuita para todos?
Não, em Portugal, a vacina da gripe é gratuita e universal para os grupos prioritários definidos anualmente pela Direção-Geral da Saúde. Para indivíduos fora destes grupos, a vacina pode ser adquirida em farmácias, mediante receita médica, e poderá ter comparticipação.
Posso contrair a gripe logo após ser vacinado?
É possível. Podem ser necessárias até duas semanas para o corpo desenvolver imunidade completa após a vacinação. Além disso, a vacina protege contra as estirpes de gripe que se prevêem ser mais prevalentes, mas não contra todas as estirpes ou outras infeções virais que causem sintomas semelhantes à gripe (como a vulgar constipação).
As crianças precisam de uma dose diferente da vacina?
Crianças com idade entre os 6 meses e os 8 anos que nunca foram vacinadas contra a gripe podem necessitar de duas doses da vacina, separadas por um intervalo de tempo, para construir uma melhor imunidade. O seu profissional de saúde indicará o esquema vacinal mais adequado.
Fontes e Referências
- Direção-Geral da Saúde (DGS) – Norma que define a Campanha de Vacinação contra a Gripe. Disponível em: https://www.dgs.pt/vacinar (link atualizado anualmente)
- Organização Mundial da Saúde (OMS) – Influenza (Seasonal). Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/influenza-(seasonal))
- National Health Service (NHS) UK – Flu vaccine. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/vaccinations/flu-vaccine-questions-answers/
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC) – What You Should Know for the 2023-2024 Flu Season. Disponível em: https://www.cdc.gov/flu/season/faq-flu-season-2023-2024.htm
- Mayo Clinic – Flu vaccine: Any side effects? Disponível em: https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/flu/in-depth/flu-shots/art-20044458
- Manual MSD (versão para Profissionais de Saúde) – Vacina contra a Influenza (gripe). Disponível em: https://www.manualmsd.pt/seccoes/doencas-infecciosas/vacinal/vacina-contra-a-influenza-gripe
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Ver também: Calendário de Vacinação em Portugal 2026 (tabela do PNV por idade)
