Vacinação

Vacina HPV: para que serve e até que idade tomar

A vacina contra o Vírus do Papiloma Humano HPV representa um avanço significativo na prevenção de diversas doenças graves, incluindo certos tipos de cancro…

A vacina contra o Vírus do Papiloma Humano (HPV) representa um avanço significativo na prevenção de diversas doenças graves, incluindo certos tipos de cancro. Este vírus, extremamente comum, pode infetar tanto homens como mulheres, e a sua transmissão ocorre predominantemente por via sexual. Embora muitas infeções por HPV sejam assintomáticas e se resolvam espontaneamente, algumas estirpes persistentes podem levar ao desenvolvimento de lesões pré-malignas e tumores.

Com o objetivo de proteger a população contra estas consequências nefastas, a vacina HPV tem sido amplamente recomendada por organizações de saúde a nível mundial. Este artigo aprofunda a importância da vacinação contra o HPV, explicando para que serve, quem deve tomá-la e até que idade é mais eficaz, bem como outras questões relevantes para o público português.

O que é o HPV e por que é importante a vacinação?

O Vírus do Papiloma Humano (HPV) é um grupo de mais de 200 tipos de vírus relacionados, alguns dos quais são transmitidos sexualmente. É uma das infeções sexualmente transmissíveis (IST) mais comuns em todo o mundo. Estima-se que a maioria das pessoas sexualmente ativas será infetada por pelo menos um tipo de HPV em alguma fase da sua vida.

A importância da vacinação reside no facto de que alguns tipos de HPV, conhecidos como "tipos de alto risco" ou oncogénicos, podem causar cancro. Os cancros mais frequentemente associados ao HPV incluem:

  • Cancro do colo do útero: Praticamente todos os casos são causados por HPV.
  • Cancros do ânus, orofaringe, vagina, vulva e pénis: Uma porção significativa destes cancros é atribuída ao HPV.

Além dos cancros, alguns tipos de HPV de "baixo risco" podem causar verrugas genitais, que, embora não sejam cancerosas, podem ser incómodas e de difícil tratamento. A infeção persistente por tipos de HPV de alto risco pode levar ao desenvolvimento gradual de lesões pré-cancerígenas que, se não forem detetadas e tratadas, podem progredir para cancro. A vacinação visa prevenir a infeção por estes tipos de HPV mais perigosos, reduzindo drasticamente o risco de desenvolvimento destas doenças.

Para que serve a vacina contra o HPV?

A vacina contra o HPV serve para proteger contra a infeção pelos tipos de vírus do papiloma humano mais associados a cancros e verrugas genitais. Existem diferentes vacinas disponíveis, que variam na quantidade de tipos de HPV que cobrem. Em Portugal, a vacina quadrivalente (que protege contra 4 tipos de HPV) e mais recentemente a nonavalente (que protege contra 9 tipos de HPV) são as mais utilizadas.

Especificamente, a vacina tem como objetivos:

  • Prevenção do cancro do colo do útero: Os tipos de HPV 16 e 18 são responsáveis por cerca de 70% dos casos de cancro do colo do útero. A vacina nonavalente protege contra estes dois tipos, bem como contra outros cinco tipos de alto risco (31, 33, 45, 52 e 58) que causam cerca de 20% adicionais de cancros do colo do útero.
  • Prevenção de outros cancros relacionados com o HPV: Inclui cancros do ânus, vagina, vulva, pénis e orofaringe, causados pelos tipos de HPV abrangidos pela vacina.
  • Prevenção de verrugas genitais: Os tipos de HPV 6 e 11 são responsáveis por cerca de 90% das verrugas genitais. A vacina quadrivalente e a nonavalente protegem contra estes dois tipos.

Ao prevenir a infeção pelos tipos de HPV mais perigosos, a vacina reduz significativamente a incidência destas doenças, contribuindo para a saúde pública e para a redução da mortalidade associada ao cancro. É importante notar que a vacina atua como uma ferramenta preventiva primária e não trata infeções por HPV já existentes nem doenças associadas. Para mais informações sobre rastreio, consulte o artigo sobre rastreio cancro do colo do útero.

Quem deve tomar a vacina contra o HPV e qual o esquema vacinal?

A vacinação contra o HPV faz parte do Programa Nacional de Vacinação (PNV) em Portugal e é recomendada para rapazes e raparigas, visando a prevenção primária da infeção e das suas consequências malignas.

Recomendações em Portugal (PNV)

Em Portugal, a Direção-Geral da Saúde (DGS) recomenda a vacinação contra o HPV para:

  • Raparigas e rapazes aos 10 anos de idade: Esta é a idade ideal para a vacinação, antes do início da atividade sexual, garantindo a máxima eficácia da vacina ao proteger os indivíduos antes da exposição ao vírus. A vacinação para ambos os sexos permite uma proteção individual mais abrangente e contribui para a imunidade de grupo, diminuindo a circulação do vírus na população.

Esquema Vacinal

O esquema vacinal recomendado varia consoante a idade do início da vacinação:

Idade da Primeira DoseNúmero de DosesIntervalo entre Doses
9 aos 14 anos (inclusive)2 dosesSegunda dose administrada 6 a 12 meses após a primeira
15 anos ou mais (incluindo adultos)3 dosesSegunda dose 2 meses após a primeira, terceira dose 6 meses após a primeira

É crucial seguir o esquema vacinal completo para garantir a proteção máxima e de longa duração. Em caso de atraso em alguma das doses, deve-se consultar o médico ou enfermeiro para ajustar o esquema sem necessidade de reiniciar a série.

Vacinação fora do PNV

Para além das idades abrangidas pelo PNV, a vacina pode ser recomendada por um médico para:

  • Indivíduos não vacinados ou incompletamente vacinados até aos 26 anos de idade: Embora a idade ideal seja antes do início da atividade sexual, a vacina ainda confere um benefício protetor considerável em idades mais avançadas, especialmente se o indivíduo não tiver sido previamente exposto aos tipos de HPV cobertos pela vacina.
  • Populações de alto risco: Incluindo homens que fazem sexo com homens (HSH) e pessoas imunocomprometidas (por exemplo, infetados por VIH), para os quais a vacinação é fortemente recomendada até aos 26 anos e, em alguns casos, até aos 45 anos, mediante avaliação médica individual.

A decisão de vacinar fora do PNV deve ser discutida com um profissional de saúde, que avaliará o risco-benefício individual.

Até que idade se pode tomar a vacina?

A questão da idade limite para a vacinação contra o HPV é frequente e a resposta pode variar ligeiramente consoante as recomendações sanitárias de cada país e as circunstâncias individuais.

Idade de vacinação prioritária e recomendada

A faixa etária ideal para a vacinação contra o HPV, conforme estabelecido pelos programas nacionais de vacinação em muitos países (incluindo Portugal), é antes do início da atividade sexual. Em Portugal, a vacina é gratuita no Serviço Nacional de Saúde (SNS) para rapazes e raparigas aos 10 anos de idade. Esta recomendação baseia-se na máxima eficácia da vacina quando administrada antes da exposição ao vírus.

Extensão da Idade para Vacinação

A maioria das organizações de saúde concorda que a vacina contra o HPV é recomendada e eficaz até aos 26 anos de idade para indivíduos que não foram vacinados anteriormente ou que não completaram o esquema vacinal. Embora a eficácia possa ser ligeiramente menor em idades mais avançadas devido à maior probabilidade de exposição prévia ao HPV, a vacina continua a oferecer proteção contra os tipos de vírus que o indivíduo ainda não contraiu.

Vacinação para Adultos Acima dos 26 Anos

Para adultos entre os 27 e os 45 anos de idade, a vacinação deve ser discutida individualmente com um médico. As principais considerações são:

  • Benefício Individual: A decisão depende da probabilidade de o indivíduo ter sido exposto aos tipos de HPV abrangidos pela vacina e do seu risco contínuo de exposição. A vacina não trata infeções existentes, mas pode proteger contra novas infeções ou contra outros tipos de HPV.
  • Custos: Fora das faixas etárias abrangidas pelo PNV, a vacina não é gratuita e os custos são suportados pelo utente.
  • Grupos de alto risco: Em algumas situações específicas, como em indivíduos imunocomprometidos ou homens que fazem sexo com homens (HSH), a vacinação pode ser recomendada até aos 45 anos, após avaliação médica detalhada.

A Agência Europeia do Medicamento (EMA) e outras entidades internacionais, como os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) nos EUA, licenciam a vacina para uso até aos 45 anos de idade, embora as recomendações para vacinação de rotina possam ser mais restritas. A discussão com um profissional de saúde, que pode avaliar o historial de saúde e o estilo de vida do indivíduo, é fundamental para determinar se a vacinação em idades mais avançadas será benéfica.

Segurança e efeitos secundários da vacina HPV

A vacina contra o HPV é uma das vacinas mais estudadas e monitorizadas a nível mundial. Múltiplos estudos e relatórios de segurança de diversas autoridades de saúde, incluindo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) e a Direção-Geral da Saúde (DGS) em Portugal, confirmam o seu perfil de segurança.

Eficácia

A vacina HPV é altamente eficaz na prevenção da infeção pelos tipos de HPV que abrange, e consequentemente, na prevenção de lesões pré-cancerígenas e cancros associados. Estudos demonstraram uma redução significativa na incidência de infeções por HPV e de lesões pré-cancerosas do colo do útero em populações vacinadas.

Efeitos Secundários Comuns

Como a maioria das vacinas, a vacina contra o HPV pode causar efeitos secundários, que são geralmente ligeiros e de curta duração. Os efeitos mais comuns incluem:

  • No local da injeção:
  • Dor
  • Vermelhidão
  • Inchaço
  • Outros efeitos gerais:
  • Febre ligeira
  • Dor de cabeça
  • Fadiga
  • Náuseas e vómitos (menos comuns)
  • Tonturas (por vezes associadas à ansiedade da injeção, especialmente em adolescentes, sendo a prevenção de quedas um protocolo importante após a administração)

Estes sintomas são tipicamente leves e desaparecem sozinhos em um ou dois dias.

Efeitos Secundários Raros

Efeitos secundários graves são extremamente raros. As reações alérgicas graves (anafilaxia) são raras, ocorrendo em cerca de 1 a cada milhão de doses. Por esta razão, é sempre recomendada a observação do vacinado durante cerca de 15 minutos após a administração da vacina.

Mitos e Desinformação

Ao longo dos anos, circularam vários mitos e informações incorretas sobre a segurança da vacina HPV, como a sua associação a síndromes complexas de dor ou problemas neurológicos. No entanto, análises exaustivas de dados de segurança levadas a cabo por organizações de saúde de renome mundial, como a OMS, os CDC, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e outros, concluíram consistentemente que não existe evidência científica que suporte estas alegações. A ciência demonstra claramente que os benefícios da vacina HPV na prevenção de cancros superam largamente os riscos potenciais. É fundamental que os utilizadores se informem através de fontes oficiais e credíveis.

A DGS, através do PNV, garante que as vacinas administradas em Portugal são seguras e eficazes, sujeitas a um rigoroso controlo de qualidade e vigilância.

Contraindicações e precauções

A vacina HPV, embora seja segura para a maioria das pessoas, possui algumas contraindicações e exige certas precauções. É fundamental informar o profissional de saúde sobre qualquer condição médica ou historial de alergias antes da vacinação.

Contraindicações Absolutas

As contraindicações absolutas, ou seja, situações em que a vacina não deve ser administrada, incluem:

  1. Reação alérgica grave (anafilaxia) a uma dose anterior da vacina HPV: Se a pessoa teve uma reação alérgica grave após uma dose prévia da vacina, não deverá receber doses subsequentes.
  2. Reação alérgica grave a qualquer componente da vacina: Isto inclui, por exemplo, alergia ao leveduras (para as vacinas produzidas em células de levedura) ou a outros excipientes da vacina.
  3. Gravidez: Embora não haja evidência de que a vacina cause danos ao feto, a sua administração não é recomendada durante a gravidez. Se uma pessoa descobrir que está grávida após a primeira dose, as doses restantes devem ser adiadas até ao final da gravidez.

Precauções

As precauções são situações em que a vacinação pode ser adiada ou exige uma avaliação médica cuidadosa:

  1. Doença aguda moderada a grave com febre: Nestes casos, a vacinação deve ser adiada até que a pessoa recupere. Uma doença ligeira, como uma constipação sem febre, geralmente não impede a vacinação.
  2. Imunossupressão: Embora a vacina seja segura e recomendada para indivíduos imunocomprometidos (por exemplo, pessoas infetadas por VIH ou que estão a fazer quimioterapia), a resposta imune pode ser subótima. Nestes casos, pode ser necessário um esquema de 3 doses, independentemente da idade, e o médico assistente deve ser consultado.
  3. Distúrbios de coagulação: Pessoas com distúrbios hemorrágicos ou que estejam a tomar anticoagulantes podem necessitar de precauções especiais na administração da vacina (ver na secção seguinte).
  4. Aleitamento materno: A vacina pode ser administrada em mulheres a amamentar. Não há evidência de risco para o bebé ou para a produção de leite.

É crucial que o utilizador discuta todas as suas dúvidas e historial médico com o profissional de saúde antes da vacinação. Este poderá fornecer as recomendações mais adequadas. Para mais informações sobre vacinação em geral, o utilizador pode consultar o nosso Guia.

Perguntas frequentes

A vacina HPV é um tratamento para infeções existentes?

Não. A vacina HPV é uma medida preventiva primária. Ela protege contra futuras infeções pelos tipos de HPV que abrange, mas não trata infeções por HPV já existentes, nem doenças causadas pelo vírus (como verrugas genitais ou lesões pré-cancerígenas).

É preciso fazer o Papanicolau (rastreio do cancro do colo do útero) mesmo depois de tomar a vacina HPV?

Sim, absolutamente. A vacina não protege contra todos os tipos de HPV que podem causar cancro do colo do útero, nem contra outras alterações celulares não relacionadas com o HPV. Por isso, as mulheres devem continuar a fazer o rastreio do cancro do colo do útero (Papanicolau e/ou teste de HPV) de acordo com as recomendações do seu médico e da DGS.

Os rapazes devem tomar a vacina HPV?

Sim. A vacinação de rapazes protege-os contra verrugas genitais, cancro do ânus e outros cancros relacionados com o HPV (como os de orofaringe e pénis). Além disso, contribui para reduzir a transmissão do vírus, protegendo indiretamente as raparigas e a população em geral (imunidade de grupo).

A vacina HPV pode causar infertilidade?

Não, não há evidências científicas que sugiram que a vacina HPV cause infertilidade em homens ou mulheres. Este é um mito sem qualquer fundamento. Estudos extensivos de segurança e vigilância pós-comercialização confirmam que a vacina é segura e não afeta a fertilidade.

Se já tive HPV ou verrugas genitais, devo tomar a vacina?

Mesmo que já tenha tido infeção por HPV ou verrugas genitais, a vacinação pode ainda ser benéfica. A vacina protege contra os tipos de HPV que ainda não contraiu. Deve discutir a situação específica com o seu médico para avaliar qual o benefício potencial no seu caso.

Fontes e Referências

  1. Direção-Geral da Saúde (DGS). Programa Nacional de Vacinação 2020. Disponível em: https://www.dgs.pt/vacinas/vacinacao-contra-hpv.aspx
  2. Organização Mundial da Saúde (OMS). Human papillomavirus (HPV) and cervical cancer. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/human-papillomavirus-(hpv)-and-cervical-cancer-and-cervical-cancer)
  3. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). HPV Vaccine Information for Clinicians. Disponível em: https://www.cdc.gov/hpv/hcp/schedules.html
  4. National Health Service (NHS). HPV vaccine. Disponível em: https://www.nhs.uk/conditions/vaccinations/hpv-human-papillomavirus-vaccine/
  5. Mayo Clinic. HPV vaccine: Is it for you? Disponível em: https://www.mayoclinic.org/diseases-conditions/hpv-infection/in-depth/hpv-vaccine/art-20047292
  6. Manual MSD (Versão para Profissionais de Saúde). Vacina contra o vírus do papiloma humano (HPV). Disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/doen%C3%A7as-infecciosas/vacina%C3%A7%C3%A3o/vacina-contra-o-v%C3%ADrus-do-papiloma-humano-hpv

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Ver também: Calendário de Vacinação em Portugal 2026 (tabela do PNV por idade)